Médicos, donos de pensões, empresários proprietários de clínicas, taxistas e até motoristas de ônibus interestaduais estão sendo acusados de envolvimento em um ‘esquema’ de aliciamento e exploração de doentes, que saem do Maranhão, Pará e Tocantins, para procurar saúde em Teresina.

Com o propósito de atrair esses doentes, dezenas de médicos e clínicas particulares, que estão estabelecidas, principalmente, na área do polo de saúde da capital do Piauí, formam uma espécie de ‘convênio’ com pensões. Por cada doente encaminhado ganha-se um valor em dinheiro.

Da pensão, onde se encontra alojado, o paciente é levado para a clínica por um funcionário da própria pensão, que passa a ser uma espécie de ‘guia’. O tal ‘guia’ tem acesso livre nas clínicas e hospitais. Andando com ele, o doente sente-se mais seguro. Tem bom relacionamento com médicos e dizem até qual o profissional que deve atender “a vítima”.


Quando entra na pensão, o doente passa por uma verdadeira entrevista. Logo é diagnosticado o tipo de especialidade médica a que ele deve ser encaminhado. “Aqui mandamos o senhor direto para o médico, o melhor da cidade nessa sua especialidade. E, por o senhor ter vindo para a nossa pensão, ainda vamos mandar uma funcionária nossa acompanhar o senhor, sem o senhor pagar nada”, disse um sujeito de bigode falho, gerente de uma pensão, no Centro de Teresina, para o lavrador João Mendes da Silva Araújo, 47 anos, vindo da zona rural de Arame, no Maranhão.

O que o gerente de bigode falho nunca imaginou era que dentro de sua pensão tinha um repórter do Portal AZ, que também se dizia com problema de saúde, para melhor registrar os flagrantes de aliciamento e exploração de doentes.



O aliciamento passo-a-passo
Em sua cidade, quando decide deixar o lugar para buscar tratamento em Teresina, o doente, ao entrar no ônibus, em alguns casos, motorista e cobrador tentam descobrir se a pessoa busca atendimento de saúde na capital do Piauí. Caso encontre, logo entregam uma espécie de cartão de visita para a pessoa, indicando nomes e pensão a procurar. O nome do motorista ou cobrador também estão lá no cartão, para garantir o recebimento da comissão. A história é a mesma: “lá é a melhor pensão; mais barato e tem convênios com os melhores médicos, clínicas, laboratórios e hospitais. A pensão fica perto de tudo. Tem até guia de graça para lhe acompanhar”.

Caso escape da primeira investida dentro do ônibus, o doente não está livre do esquema de sedução e exploração. Ao chegar ao terminal rodoviário de Teresina, se logo na descida do ônibus não for abordado por um funcionário de pensão, ao entrar no táxi o doente não escapa. Acaba sendo levado para ‘a melhor pensão do mundo’. Vantagens é o que não faltam.

Se escapar da terceira investida, o doente ainda terá que enfrentar verdadeiros agentes comissionados das clínicas e hospitais, que ficam perambulando e abordando suas ‘presas’ na região do polo de saúde de Teresina.

A exploração
Na cabeça do doente, o povo de Teresina é muito acolhedor. Nada é cobrado diretamente do cliente. “Aqui o senhor só paga mesmo à hospedagem e o que consumir. A consulta e exames o senhor paga lá na clínica”, enfatizou o gerente de pensão de bigode falho ao paciente João Mendes da Silva Araújo.

O detalhe é que, uma vez identificado, o paciente sofre verdadeira exploração. Todas as comissões (desde do motorista e cobrador do ônibus, do taxista e do dono da pensão) estão embutidas nos preços cobrados dele, sem que ao menos desconfie.

O dono da pensão paga a comissão por terem levado o doente até lá e tira o valor no pagamento da hospedagem. A clínica, médico e hospital, pagam comissão ao dono de pensão por cada doente. Também tira o valor nas consultas e procedimentos médicos.

No final, a vítima ainda fica agradecida por ter sido “tão bem recepcionada” em Teresina. O próprio João Mendes da Silva Araújo chegou à pensão através de um compadre dele, Francisco José, que também passou por tratamento médico na capital do Piauí. Saiu espalhando que a pensão tem até médico particular. Mas comissão ‘que é boa’, Francisco José nem sabe que existe, muito menos que pagou.

Vítimas selecionadas a dedo
O esquema identifica muito bem quem são os doentes do SUS (Sistema Único de Saúde). Quem busca esse tipo de atendimento, é logo descartado pelo esquema. Na triagem já se sabe.

A vítima ideal é aquela pessoa que junta pequenas economias para cuidar da saúde. Geralmente, vende gado, caprinos ou outros animais, às vezes algum ‘pedaço de terra’ (alguns fazem empréstimos) e bota o dinheiro no bolso para ‘se tratar’.



Todos sabem, mas fecham os olhos
O “esquema” para aliciar e explorar doentes em Teresina atua há cerca de duas décadas sob a omissão das autoridades locais. No ano de 2002, o administrador hospitalar Jorgenei Moraes, hoje diretor do Programa Lagoas do Norte, denunciou em seu livro “O Paciente do M3”, 2ª edição. Ninguém tomou providências.

O Código de Ética Médica proíbe, por exemplo, que seja feita a captação de doentes. Prevê punições severas. Mas a punição fica mesmo só no papel. Na prática, a captação de pessoas que precisam de saúde virou uma espécie de profissão em Teresina. Nos arredores do Hospital Getúlio Vargas, nas proximidades das clínicas, pessoas “se estapeiam” disputando o que chamam de “clientes”.

Mesmo com as denúncias, a relação de doentes e pensões nunca foi objeto de investigação. Nem mesmo pelas comissões de direitos humanos da OAB, Assembleia Legislativa, Câmara Municipal ou Ministério Público do Estado.

Ao contrário, as pensões que exploram doentes, se multiplicam e se consolidam a cada dia, principalmente com a falácia de que Teresina é referência em boa saúde.



(*) Matéria publicada originalmente no Portal AZ, de autoria de Walcy Vieira, transcrita para o Tribuna de Barras
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