Padre Gilberto Freitas, da Paróquia do Bairro Cristo Rei, em Teresina.
O ato de jejuar na Quaresma e na Semana Santa vai muito além do simples gesto de abdicar de alguns tipos de alimentos. Para a Igreja, significa uma forma expressiva de penitência que ajuda o ser humano na busca da conversão e santidade. O jejum vem expresso no Quarto Mandamento da Lei da Igreja que diz: "Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja". O Código de Direito Canônico estabelece o jejum todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma.
“Mas, durante a Semana Santa, o jejum é obrigatório somente na quarta-feira de cinzas e sexta-feira da paixão de nosso senhor Jesus Cristo”, afirma o Padre Gilberto Freitas, natural de Barras, vigário da Paróquia de Cristo Rei, Bairro Cristo Rei, zona sul de Teresina.
O sacerdote explica que, na prática, o jejum pode ser absoluto-total ou parcial. “O total requer que você se abstenha de qualquer tipo de sólidos ou líquidos, exceto água. Já o parcial requer que você se abstenha de certos alimentos ou de todos eles durante parte do dia. Esse tipo de jejum é comum entre os católicos durante a Quaresma. No jejum de um hábito você precisa parar de ter certo comportamento. Isso pode ser qualquer coisa, desde levantar sua voz e até jogar cartas”, conta.
A carne é o alimento mais excluído da dieta durante esse período. E há uma explicação, segundo a Igreja. “A carne é um alimento do qual, normalmente, todos gostam. Não seria sacrifício abster-se de uma coisa da qual não gosta. O jejum e a abstinência da carne, além de nos conduzir à união com Jesus em sua experiência de sofrimento, têm ainda dois outros valores intrinsecamente relacionados: a superioridade da pessoa humana sobre as coisas e a lembrança de quem fica sem comer por não ter o necessário para sua subsistência, e nos sentimos impelidos a ajudá-los, repartindo com eles o que Deus nos de”, ressalta o pároco.
Além de alimento, jejum pode ser de internet e até sexo
Além de abster-se total ou parcial de alimentação em determinados dias, por penitência religiosa, também pode ser incluso na tradição a abstenção de outros hábitos. “Como ver televisão, a internet, o sexo, falar menos, sobretudo da vida alheia. Então, a maioria dos católicos é obrigada a cumprir esse preceito, que não deve ser encarado como uma imposição, um sacrífico, mas sim, como meio seguro de responder ao apelo de Jesus à conversão do coração”, diz o padre, ressaltando que nem todo mundo é obrigado a jejuar durante a Semana Santa. 
“Somente estão obrigados os fiéis entre 18 e 59 anos e onze meses, com plena saúde. Entre as exceções, estão os dispensados: os doentes, as grávidas, os menores e os trabalhadores com pesados empenhos braçais e intelectuais, assim também como os famintos que receberam vários tipos de alimentos como esmola. O Código Canônico diz que todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência; de modo especial à oração, pelas obras de piedade e caridade”, explica.
Consumismo vem derrubando a tradição 
Com a era do consumismo cada vez mais forte, jejuar durante a Semana Santa é uma tarefa considerada difícil, principalmente para as novas gerações. O fato preocupa a Igreja. “O consumismo do mundo capitalista tem provocado muitas mudanças de valores e comportamentos na sociedade. Entre eles, a prática do jejum por penitência religiosa, onde a Igreja guardou até hoje, da parte de alguns fiéis, essa vivência em todas as sextas-feiras da quaresma e sexta-feira da Paixão”, alerta o padre Gilberto.
Jejum é remédio eficaz para Alma
A funcionária pública Maria de Jesus Veras segue à risca a tradição do jejum em todas as sextas-feiras da Quaresma. Durante o período, o peixe vira opção para substituir a carne. 
“Qualquer pessoa que queira desenvolver sua vida espiritualmente deve todos os dias encontrar um tempo suficiente para dedicar-se a determinados atos de orações. O jejum na Quaresma, por ser um tempo especial, a Igreja católica nos convida a praticá-lo para que possamos nos preparar para viver a vitória sobre a morte: a ressureição de Jesus Cristo. Para mim, o jejum é como um remédio eficaz para a alma”, conta.
Já a teóloga Conceição Salomé diz que o jejum deve acontecer pelo menos uma vez ao ano, de preferencia na Páscoa da Ressureição. “A Igreja como mãe e mestra, nos ensina jejuarmos pelo menos uma vez por ano na Páscoa da Ressurreição. O jejum não deve ser austero (rígido), e sim a diminuição das refeições principais, procurando abster-se de qualquer alimento nos intervalos entre uma e outra”, explica.
Para Salomé, o tempo quaresmal é colocado como um retiro espiritual. “Lembrando-nos dos quarenta dias que Jesus passou no deserto, em oração e jejum preparando-se para sua missão de Salvação e Redenção da humanidade. Portanto, o jejum nos leva a viver, maior intimidade com Cristo e nos fortalece para nossa missão de batizado, servir o outro”, afirma.
(*) Texto: Hérlon Moraes. Foto: Wilson Filho
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