Foi-se o tempo em que abria-se alas para o Papa, o Bispo, o Juiz ou Delegado. Agora a obrigatoriedade de abrir alas é para o fotógrafo. Com uma câmera na mão o sujeito pode tudo: pisar alguém, impedir a passagem de outrem e até solicitar afastamento de uma pessoa do local predileto para a foto. A câmera fotográfica é o símbolo mágico do século XXI. Ela pode, inclusive, impedir o direito de ir e vir das pessoas, bem como o direito à privacidade. Quem ainda não foi vítima da seguinte façanha: você vai passando pela rua e o fotógrafo sem nenhum constrangimento impede sua passagem a fim de não estragar o flash. Outros caminham de costas na direção de quem quer que seja procurando a melhor posição para a foto não importando se tiver que atropelar alguém. Pouco importa se é um velório, uma reunião religiosa, uma festa particular ou um bate papo descontraído com os amigos em um restaurante, quando o fotógrafo chega nada poderá impedir o click poderoso do divã da modernidade: o aparelho fotográfico.

A câmera de foto poderá estar acima até mesmo da ética, da solidariedade, das boas maneiras. Ao ver um corpo estendido no chão, vítima de um acidente, a prioridade de numero um é registrar a cena em uma foto. Em seguida é que vem a possível busca de um socorro médico. Nesse sentido, a fotografia, seja lá do que for, passou a ocupar em nossos dias a posição mais alta na pirâmide de prioridades de qualquer coisa. 

A foto não representa simplesmente um registro de utilidades, como algum tempo as pessoas guardavam para mostrar aos filhos e aos netos ou para colocar na parede como adorno. Atualmente, o simples ato de fotografar já possui em si um valor de status social ou de passatempo. As fotos tiradas podem ser descartadas imediatamente ou nunca terem nenhuma utilidade na vida de uma pessoa, mas o fundamental é espalhar flashes de luz na plateia.


Foi-se o tempo em que as pessoas ficavam isoladas em aldeia. A fotografia possui potencial de integrar um indivíduo ao resto do planeta, além disso, pode ter rentabilidade econômica e artística. A discussão grega entre a relação de prioridade entre essência e aparência parece ter sido resolvida no século XXI. Platão, filósofo grego, certamente diria que a fotografia é o que existe de mais inconfiável e indigno por não representar a essência das coisas. Para ele a verdade estaria no mundo das ideias. Contudo, hoje houve uma inversão. O essencial parece ser a foto, o aparente. Para se conseguir um status o fundamental é preparar uma boa foto. Por isso sou levado a concluir que vivemos hoje a ditadura da foto


(*) Carlos Reis, professor de Filosofia e Escritor, residente em Balsas/MA
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